Reencarnação: Lei da Bíblia
Lei do Evangelho, Lei de Deus
PRÓLOGO À 3.ª EDIÇÃO
A primeira tiragem do Reencarnação data de março de 1999. Estreávamos nas lides da literatura espírita. Devemos isso à professora Cristina da Costa Pereira, que nos disse no auditório da USEERJ em 1997: “Você deve tentar a Lachâtre; é uma editora visionária, muito à frente do que se vê por aí”. Temos de agradecer também à editora, que aceitou o desafio dessa empreitada e, posteriormente, de mais três: Com quem falaram os profetas? (2000), O espírito das revelações (2001) e O mais profundo religar (2003).
Quanto ao Reencarnação, os êxitos alcançados, de um lado, se mostraram nos testemunhos que nos ressaltaram a objetividade e o didatismo da obra, em que pese à quantidade de referências que lhe embasam as proposições; de outro, na aprovação de seu acabamento conceitual, em tudo fiel à codificação espírita, a despeito de tão funda incursão escriturística. Mas é que sempre consideramos com gravidade o que firmaram os professores Deolindo Amorim e J. Herculano Pires:
“É o espiritismo que interpreta o evangelho, não é o evangelho que interpreta o espiritismo”.
"Admitir o absolutismo das escrituras seria frustrar a evolução do cristianismo nos rumos da plena espiritualidade, que constitui ao mesmo tempo a sua essência e o seu destino, seu objetivo".
Dignos representantes do pensamento kardeciano, exemplos em que procuramos nos mirar, os autores supracitados demonstram incondicional fidelidade à revelação espírita, cuja autoridade foi assim expressa pelo mestre lionês em face das próprias escrituras:
"[...] mesmo com os apóstolos, [Jesus] conservou-se impreciso acerca de muitos pontos, cuja completa inteligência ficava reservada a ulteriores tempos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até que a ciência, de um lado, e o espiritismo, de outro, revelassem as novas leis da natureza, que lhes tornaram perceptível o verdadeiro sentido".
"As religiões que se fundaram no evangelho não podem, pois, dizer-se possuidoras de toda verdade, porquanto, ele, Jesus, reservou para si a complementação ulterior de seus ensinamentos. O princípio da imutabilidade, em que elas se firmam, constitui um desmentido às próprias palavras do Cristo".
Fixamos nossa criteriologia consoante as indicações acima para não sermos veículo de conceitos verdadeiros mesclados a ranços desnaturadores da proposta espírita.
Apesar do êxito do Reencarnação, proceder a uma revisão — mais que a uma ampliação — pareceu-nos oportuno. Tivemos por meta ser ainda mais simples, acentuando a fluidez da linguagem, a objetividade dos conceitos e, sobretudo, a transparência das fontes. Não queremos que nos seja creditado qualquer mérito que não se nos aplique; aliás, se algum temos, é o de ser um obstinado articulador de informações a serviço da doutrina espírita.
Este livro só terá alcançado seu objetivo se o leitor puder compreender que o espiritismo não se distancia das bases da cultura judaico-cristã ao ensinar a reencarnação, mas que presta a essas bases o favor impagável de lhes restituir a credibilidade do seu verdadeiro sentido, em tudo dependente, hoje, de uma legítima compreensão espírita de suas proposições.
Rio, setembro de 2003
SERGIO F. ALEIXO
INTRODUÇÃO
Dialogava Sócrates com seu discípulo Cebes. Era o século IV antes de Jesus Cristo. Espírito elevado, o grande filósofo ensinava a lógica da reencarnação já naqueles tempos.
"Sócrates: — É uma opinião muito antiga que as almas ao deixarem este mundo vão para o hades, e dali voltam para a Terra, e retornam à vida depois de terem passado pela morte. Se é assim, e se os homens depois da morte voltam à vida, deduz-se necessariamente que as almas estão no hades durante esse tempo, porque não voltariam ao mundo se não existissem e isto é uma prova de que existem, uma vez que os vivos nascem dos mortos [...]. Não reconheceremos à morte a virtude de produzir seu contrário, ou diremos que quanto a isto a natureza é coxa? Não é necessário, de modo absoluto, que a morte tenha seu contrário?
Cebes: — Com efeito.
Sócrates: — E qual é seu contrário?
Cebes: — Reviver.
Sócrates: — Reviver, se há um retorno da morte à vida, é efetuar esse retorno. Por esta razão nos convenceremos de que os vivos nascem dos mortos, como estes daqueles, prova inconteste de que as almas dos mortos existem em algum lugar, de que tornam a viver".
Hoje, porém, não são especulações que revelam a lógica reencarnatória, mas os dados da experiência. Ordenados com extremo rigor pela metodologia da pesquisa científica, esses dados estão a indicar como lei natural a palingênese, ou palingenesia (do grego palin: de novo, e génese: nascimento). Ela se apresenta indispensável ao equacionamento de muitos fenômenos estudados nos domínios interdisciplinares da biologia, da física e da psicologia. É uma confirmação destas palavras do codificador do espiritismo ainda em pleno século XIX: “[...] só a doutrina da pluralidade das existências explica o que, sem ela, se mantém inexplicável [...]”.
O grande desafio da ciência do porvir será estudar as relações entre o elemento espiritual e o elemento material por métodos especialmente adequados a esse tão delicado objeto de pesquisa. Um êxito pleno, contudo, só estará assegurado mediante a concepção espírita da reencarnação.
Ao dizermos “concepção espírita”, não insinuamos que a reencarnação seja propriedade ou invenção da doutrina codificada por Allan Kardec, apenas que tem características muito próprias quando considerada desse ponto de vista.
O rigor do critério lógico-científico em que está baseado o espiritismo não lhe permite ver a reencarnação como sádico castigo imposto por Deus nem, menos ainda, incluindo a irracional hipótese de retrogradação da alma a reinos inferiores da natureza. Antes, trata-se de uma necessidade para a plenificação do princípio inteligente, ou espiritual. Atingindo a condição de humanidade, esse princípio não retorna a fases por si já superadas em sua evolução multimilenar. Segundo os espíritos superiores: “É assim que tudo serve, tudo se encadeia na natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo”.
Nossa proposta não é apresentar provas científicas da reencarnação. (Se provas convencessem, médicos não fumariam!) Radicadas nas melhores universidades do planeta, inteligências com graduação Ph.D. realizam muito competentemente essa tarefa. Ela se tornou mais interessante, aliás, para cientistas do que o seria para certos religiosos...
Diante das tendências modernas e conhecendo a obra de Kardec, limitamo-nos a perguntar, acerca do cristianismo, se apenas descobertas arqueológicas podem livrá-lo das toneladas de dogmas que sobre ele pesam? O estudo perseverante e sério das escrituras nada mais tem que acrescentar à compreensão da doutrina de Jesus? A busca quase febril por escritos inéditos, apócrifos ou não, é o único meio de despir o cristianismo dos trajes inadequados com que o fizeram se apresentar à modernidade?
Adepto do espiritismo, somos favorável às pesquisas científicas. As descobertas do mar Morto e do Alto Egito são fascinantes. Porém, desde a codificação kardeciana, a ciência espírita aplicada resolveu muito daquilo que, nas escrituras, permanece insolúvel para alguns.
Neste trabalho, queremos demonstrar que a cultura judaico-cristã tem precedentes reencarnacionistas incontestáveis, a despeito de as políticas igrejeiras, sustentadas pelos mais absurdos teologismos, se obstinarem ainda em negá-los.
Um esforço bem modesto de síntese acerca do tema, esta obra não pretende esgotá-lo, apenas contribuir para sua elevação ao lugar de importância que reclama na nossa cultura. Afinal, as inteligências de graduação Ph.D. da física, da psicologia e da biologia é que têm sido as mais ardorosas adeptas da pluralidade das existências.
Então, os religiosos conscientes devem admitir e identificar nas escrituras a presença granítica da reencarnação, uma lei da natureza legitimada, sim, pelos fundamentos da civilização ocidental: a bíblia e os evangelhos. Ela constitui a única justificativa lógica para o nosso código ético-moral, cada vez mais necessário ante a perigosa insuficiência da patológica acuidade intelectiva de nosso tempo: ciência sem consciência, razão sem coração.
SERGIO F. ALEIXO
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Sumário da Obra
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Prefácio
Prólogo à 3.ª edição
Introdução
PARTE I
Dos Precedentes Fundamentais
Capítulo 1
Lei de causa e efeito
Capítulo 2
Considerações etimológicas
Capítulo 3
Ressurreição e reencarnação
PARTE II
Da Exegese Escriturística
Capítulo 1
Algum dos profetas
Capítulo 2
Ressurreição e resgate
Capítulo 3
Renascer de novo
Capítulo 4
A reencarnação no Decálogo
Capítulo 5
Os gêmeos de Rebeca
Capítulo 6
O erro dos amorreus
Capítulo 7
Tornar a subir do sheol
Capítulo 8
Agronomia espiritual
Capítulo 9
O que é já foi
Capítulo 10
A prova de Jó
Capítulo 11
Cegueira de nascença
Capítulo 12
Não tornes a pecar
Capítulo 13
Nem neste ciclo nem no vindouro
Capítulo 14
Alma e corpo na geena
Capítulo 15
Entrar na vida com um só olho
Capítulo 16
Morrer à espada
Capítulo 17
Vendo não vêem, ouvindo não ouvem
Capítulo 18
Seguir na reencarnação
Capítulo 19
O profeta Daniel e João Evangelista
Capítulo 20
O profeta Elias, João Batista
e Allan Kardec
Capítulo 21
Esta geração não passará
Apêndice
Jesus na visão espírita
Bibliografia