Sergio Fernandes Aleixo

Menu

Links

Icq Status

Com Quem Falaram os Profetas?

Fundamentos Bíblicos da Fenomenologia Espírita
Fundamentos Bíblicos da Fenomenologia Espírita

INTRÓITO


Os fenômenos espíritas — quer anímicos, quer mediúnicos — constituindo um dos problemas em que a realidade sempre se nos traduziu, tiveram como resposta reflexiva do homem a concepção espiritualista da vida, conforme as diversas culturas de todos os tempos.

Do estudo científico dessa ordem de fenômenos surgiu a doutrina espírita ou espiritismo, cuja codificação coube ao ínclito discípulo de Pestalozzi, o pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, 3.10.1804 — Paris, 31.3.1869), que adotou para esse mister o pseudônimo Allan Kardec.

Importa, pois, que não se confunda o espiritismo (ciência e doutrina) com os fenômenos espíritas (objeto de seu estudo).

Orígenes, Clemente de Alexandria e santo Agostinho, por exemplo, já afirmavam a realidade da fenomenologia espírita. Os dois primeiros muito se reportavam ao Livro do pastor, publicado em 220 por Caio e adotado pela igreja católica até o século V. De autoria de Hermas, discípulo dos primeiros apóstolos, saudado por Paulo numa de suas epístolas, essa obra continha claras referências às comunicações mediúnicas, ensinando até a discernir a natureza das mesmas. Dizia o antigo apóstolo do cristianismo nascente:

"O espírito que vem da parte de Deus é pacífico e humilde; afasta-se de toda malícia e de todo vão desejo deste mundo e paira acima de todos os homens. Não responde a todos os que o interrogam, nem às pessoas em particular, porque o espírito que vem de Deus não fala ao homem quando o homem quer, mas quando Deus o permite. Quando, pois, um homem que tem um espírito de Deus vem à assembléia dos fiéis, desde que se fez a prece, o espírito toma lugar nesse homem, que fala na assembléia como Deus o quer. (É o médium falante.) Reconhece-se, ao contrário, o espírito terrestre, frívolo, sem sabedoria e sem força, no que se agita, se levanta e toma o primeiro lugar. É inoportuno, tagarela e não profetiza sem remuneração. Um profeta de Deus não procede assim".

E elucida, muito oportunamente, o continuador número um de Kardec:

"Segundo a escritura, “profetizar” não significa unicamente predizer ou adivinhar, mas também ser impulsionado por um espírito bom ou mau. [...] Encontram-se muitas vezes estas expressões na boca dos profetas: “O peso do Senhor caiu sobre mim”, ou ainda, “o espírito do Senhor entrou em mim”. Esses termos claramente indicam a sensação que precede o transe, antes de ser o médium tomado pelo espírito. E ainda: “Vi, e eis o que disse o Senhor”, o que designa a mediunidade vidente e auditiva simultâneas".

Não soubéssemos ser o de Hermas um texto publicado no século III de nossa era e pensaríamos integrar alguma obra espírita...

O fato é que o espiritismo nos trouxe como saber, porque agora fundada numa abordagem racional e científica, a sabedoria das mais antigas tradições, principalmente no que respeita à comunicabilidade da alma após a morte biológica e à reencarnação, a despeito de a tradição não haver sido o ponto de partida de Allan Kardec, e sim a investigação fenomênica.

No antecitado texto de Hermas, confirma-se o seguinte esclarecimento do benfeitor espiritual Emmanuel: “O mediunismo evangelizado, dos tempos modernos, é o mesmo profetismo das igrejas apostólicas”.

Por que será, então, que aqueles que tanto se intitulam cristãos condenam a mediunidade? Os médiuns, quando técnica e eticamente bem orientados, mais não são do que os outrora chamados profetas de Deus.

No campo religioso, a principal objeção ao mediunato está nas proibições de Moisés, consignadas, sobretudo, no Levítico e no Deuteronômio. O grande legislador hebreu, porém, não admoestava senão a prática mediúnica desesclarecida, supersticiosa e frívola, o que não se aplica à mediunidade exercida segundo a técnica e a ética espíritas.

Moisés certamente apoiava o mediunato, isto é, o profetismo, quando bem exercido; até o desejava para todo o seu povo: “[...] quisera eu que todo o povo de Jeová fosse profeta, porque Jeová poria seu espírito sobre eles!”.

É um dado antropológico hoje incontestável que os fenômenos espíritas fundamentam todas as seculares tradições religiosas; sendo assim, a religião que lhes lança anátema nega a si mesma, dando mostras de ignorância.

A ciência que primeiro tomou por objeto de estudo essa fenomenologia, segundo um método que conduziu à descoberta de suas leis específicas, foi o espiritismo, donde Allan Kardec haver chamado “espíritas” a tais fenômenos. Não é acertado, portanto, utilizar a expressão “fenômeno espírita” como sinônima de “fenômeno mediúnico”, pois que este é apenas uma das faces daquele outro. Se não, vejamos a definição kardeciana:

"Os fenômenos espíritas consistem nos diferentes modos de manifestação da alma ou espírito, quer durante a encarnação, quer no estado de erraticidade. É pelas manifestações que produz que a alma revela a sua existência, sua sobrevivência e sua individualidade; julga-se dela pelos seus efeitos; sendo natural a causa, o efeito também o é. São esses efeitos que constituem objeto especial das pesquisas e do estudo do espiritismo, a fim de chegar-se a um conhecimento tão completo quanto possível, assim da natureza e dos atributos da alma, como das leis que regem o princípio espiritual".

Aquilo que psicólogos e psiquiatras pioneiros, desde as décadas de cinqüenta e sessenta do século XX, chamam “estados especiais de vigília”, “estados alterados de consciência”, ou ainda “estados de expansão de consciência”, o professor Rivail, mais de um século antes, estudara já durante trinta e cinco anos de sua vida; à época, fenômenos conhecidos por “sonambúlicos”. Posteriormente, na condição de codificador do espiritismo, catalogou-os como efeitos da “emancipação da alma”, assegurando que “muitas manifestações espíritas são explicáveis por esse meio”. O sábio russo A. Aksakof é que chamou os fenômenos sonambúlicos “anímicos”. No entanto, independente disso, o mestre de Lyon já distinguira em suas pesquisas esses fenômenos anímicos (modos de manifestação da alma durante a encarnação) dos fenômenos mediúnicos (modos de manifestação do espírito no estado de erraticidade), a ambos identificando como fenômenos espíritas, porque relativos exatamente ao ser imortal, quer ainda ligado à carne, quer dela já desligado.

O que chega mesmo a ser emocionante é depreender de estudos e tendências contemporâneas o tanto de pioneirismo do gênio de Kardec... Em seu primeiro livro, Patrick Drouot, físico, Ph.D. pela Universidade de Columbia, afirma:

"Pouco a pouco, numerosos cientistas evoluem em direção à idéia de que a inclusão da consciência humana no campo das pesquisas atuais permitiria o acesso à compreensão da natureza do ser humano e, conseqüentemente, à do universo".

Ora! Em seu brilhante Resumo teórico do sonambulismo, do êxtase e da dupla vista (1860), o codificador da doutrina espírita se revela o maior dos precursores contemporâneos desta tendência de perquirição da natureza da consciência humana e sua inclusão no campo das pesquisas científicas. Os termos que emprega em O livro dos espíritos, item 455, de tal modo são categóricos que não permitem dúvidas, chegando mesmo a ser proféticos.

"O sonambulismo natural constitui fato notório, que ninguém mais se lembra de pôr em dúvida, não obstante o aspecto maravilhoso dos fenômenos a que dá lugar. Por que seria então mais extraordinário ou irracional o sonambulismo magnético? Apenas por produzir-se artificialmente, como tantas outras coisas? Os charlatães o exploram, dizem. Razão de mais para que não lhes seja deixado nas mãos. Quando a ciência se houver apropriado dele, muito menos crédito terão os charlatães junto às massas populares. Enquanto isso não se verifica, como o sonambulismo natural ou artificial é um fato, e como contra fatos não há raciocínio possível, vai ele ganhando terreno, apesar da má-vontade de alguns, no seio da própria ciência, onde penetra por uma imensidade de portinhas, em vez de entrar pela porta larga. Quando lá estiver totalmente, terão que lhe conceder direito de cidade. Para o espiritismo, o sonambulismo é mais do que um fenômeno psicológico, é uma luz projetada sobre a psicologia. É aí que se pode estudar a alma, porque é onde esta se mostra a descoberto".

Allan Kardec anteviu, além de tudo, a problemática epistêmico-metodológica suscitada pela incursão em estudos de natureza eminentemente psíquica, isto é, no que tange mesmo à constituição de conhecimento propriamente dito nesse campo tão fascinante que é o da exploração da natureza da consciência humana. Superando a sua formação pessoal, clássica, compreendeu a genialidade do mestre lionês que a realidade descortinada pela fenomenologia espírita não encontrava na aplicação dos conceitos da visão mecanicista do mundo uma abordagem satisfatória, pelo que foi levado a afirmar no antecitado Resumo teórico:

“A alma tem suas propriedades, como os olhos têm as suas. Cumpre julgá-las em si mesmas e não por analogia”.

O fato é que Allan Kardec não se deteve na periferia dos fenômenos espíritas; quer anímicos, quer mediúnicos, ele soube integrá-los ao vasto conjunto da busca do mais necessário de todos os saberes: quem somos, de onde viemos, para onde vamos.

Analisando algumas das principais passagens bíblicas que constituem inequívocas narrativas da fenomenologia espírita na antiguidade, pudemos flagrar uma situação particularmente contraditória de nossa cultura, assim descrita por um dos pais da psicologia transpessoal, o doutor Stanislav Grof:

"[...] a psiquiatria tradicional não faz distinção entre neurose e misticismo e tende a tratar todos os estados de consciência incomuns com medicação supressiva. Isso criou um cisma particular na cultura ocidental.
Oficialmente, a tradição religiosa judaico-cristã é apresentada como a base e o fundamento da civilização ocidental. Todo quarto de motel tem um exemplar da bíblia na gaveta do criado-mudo e em seus discursos políticos de alto nível se referem a Deus. Contudo, se um membro de uma comunidade religiosa tivesse uma intensa experiência espiritual semelhante à de muitas figuras importantes da história do cristianismo, o sacerdote comum o mandaria consultar um psiquiatra".

Mas tal situação está mudando. Quanto à relação atual de nossa cultura com a fenomenologia espírita (ainda que não assim denominada), assegura o doutor Raimond A. Moody Jr.:

"O que está ocorrendo, creio, é que, coletivamente, estamos nos abrindo dentro de nós mesmos e entre nós para estados de consciência alterados, bem familiares aos nossos ancestrais em tempos remotos, mas que foram sendo reprimidos no correr de nossa civilização, rejeitados como superstição [pela ciência] ou mesmo coisa demoníaca [pela religião]".

Nosso intento é tornar aqui patente, em consonância com as atuais incursões da própria ciência, o quanto são infundadas as objeções das igrejas contra o espiritismo.

O objeto de estudo da ciência espírita é o veículo mesmo das revelações escriturísticas.

SERGIO F. ALEIXO

---------------
Sumário da Obra
---------------

Prefácio

Intróito

1 — A proibição de Moisés

2 — Os dez mandamentos e a ectoplasmia

3 — Moisés, Iahweh e o profetismo

4 — A mediunidade de Josué

5 — A mediunidade de Davi

6 — A pitonisa de Endor

7 — A mediunidade de Elias

8 — A mediunidade de Samuel

9 — Elifaz vê um espírito

10 — A ruptura da cadeia de prata

11 — Um anjo na fornalha

12 — O banquete de Belsazar (Baltazar)

Bibliografia