Sergio Fernandes Aleixo

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A Identidade Profética da Doutrina Espírita
A Identidade Profética da Doutrina Espírita

INTRÓITO

DAS RELAÇÕES DO ESPIRITISMO
COM AS ESCRITURAS E DA SUA
IDENTIDADE PROFÉTICA


Podemos dimensionar as relações entre o Espiritismo e as Escrituras em três aspectos fundamentais: 1.º — o fenômeno espírita; 2.º — o ensino espírita; 3.º — a identidade profética (e ética) do Espiritismo.

Os fenômenos espíritas, como Kardec os definiu — aqueles provocados pela alma ou espírito, quer no estado de encarnação, quer no de erraticidade —, são amplamente referidos nas Escrituras, conforme demonstramos em nosso segundo livro. Importa, contudo, salientarmos que nem por isso se pode dizer que o Espiritismo esteja propriamente na Bíblia. A Doutrina Espírita surgiu apenas em 18 de abril de 1857, com a publicação, em Paris, de O Livro dos Espíritos.

Por outro lado, é correto afirmar que estão nas Escrituras os conteúdos do ensino espírita: as verdades fundamentais da natureza espiritual da vida. Tais preceitos foram conhecidos de todas as épocas. Em meados do século XIX, todavia, eles ressurgiram nos moldes da cultura científica da idade da razão. Kardec, apesar disso, não partiu de nenhuma tradição antiga, e sim de rigorosa pesquisa experimental. Houve um encontro espontâneo do saber com a sabedoria.

Em nosso primeiro livro, mencionamos a existência de autoridade conferida ao Espiritismo pela sua identidade profética. Naquela ocasião, recorremos a essa autoridade para elucidar determinados conteúdos escriturísticos em favor da reencarnação, objeto central daquele trabalho.

Já o nosso terceiro livro constitui uma afirmação dos fundamentos da identidade cristã do Espiritismo, compreendendo-a em três níveis. O segundo desses níveis, dissemos tratar-se dos ascendentes espirituais da Doutrina Espírita, a qual é obra do Cristo Jesus: O Espírito de Verdade.

Neste livro, nossa óptica de pesquisa incide sobre aquele terceiro aspecto da relação entre o Espiritismo e as Escrituras: sua identidade profética. Nesse sentido, o Espiritismo de fato consta do Velho e do Novo Testamento. Entretanto, não é seu nome que ali encontramos, e sim as predições que nele se cumprem. Daí sua identidade “profética” e, vale salientá-lo, identidade essa judaico-cristã por excelência. São pelo menos sete os eventos que, somados, respondem pela identidade oculta do Espiritismo:

1.º — derramamento do espírito (Joel, II: 28 e 29 ou III: 1 e 2); 2.º — nova aliança (Jeremias, XXXI: 31 a 34); 3.º — advento do Consolador ou Espírito de Verdade (João, XIV: 15 a 18; XIV: 25 e 26; XV: 26 e 27; XVI: 7 a 15, 25); 4.º — anúncio do Evangelho eterno (Apocalipse, XIV: 6 e 7); 5.º — cumprimento do mistério (ou segredo) de Deus (Apocalipse, X: 5 a 7); 6.º — restabelecimento (ou restauração) de todas coisas (Mateus, XVII: 11, e Atos dos Apóstolos, I: 6 e 7; III: 19 a 21); 7.º — volta do Cristo Jesus (Mateus, XVI: 27 e 28; XXIV: 30 e 31, etc., etc.)

Integram esta obra inúmeras citações e referências. Nosso objetivo, como sempre, não é demonstrar qualquer erudição, mas facilitar o contato com as fontes que nos levaram ao que expusemos, assim como fundamentar nossas conclusões, para que não se afigurem destituídas das mais sólidas razões doutrinárias.

O Espiritismo é algo muito sério, conhecimento constituído, doutrina simples mas minuciosa, expressa por uma literatura que hoje é clássica, como A. Kardec, L. Denis, G. Delanne, J. Herculano Pires; precisa ser estudado nas fontes.

A tudo isso se adiciona o fato de muito valorizarmos o trabalho de quantos aplainaram o caminho da elaboração do autêntico pensamento espírita contemporâneo. Não devem ficar penumbrados pela pretensão dos mais ridículos ineditismos ou pela negligência de tão comprometedoras ignorâncias. Temos com eles um compromisso histórico e, sobretudo, um dever espiritual!

O principal evento que integra a identidade profética do Espiritismo foi assim anunciado por Jesus:

Se me amais, observai os meus mandamentos. — E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Paráclito, para que fique eternamente convosco, — o Espírito de Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conhecereis, porque habitará convosco, e estará em vós. — Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós. (João, XIV: 15-18.)

Tenho vos dito isto, estando convosco. — Mas aquele Consolador, (o Espírito Santo), que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. (João, XIV: 25-26.)

Quando chegar o Ajudador que eu vos enviarei do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, esse dará testemunho de mim; — e vós, igualmente, haveis de dar testemunho, porque estivestes comigo desde que comecei. (João, XV: 26-27.)

Mas, eu digo-vos a verdade: A vós convém que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o Paráclito; mas, se eu for, eu vo-lo enviarei. — Ele, quando vier, convencerá o mundo, quanto ao pecado, e à justiça, e ao juízo. — Quanto ao pecado, porque não creram em mim; — quanto à justiça, porque eu vou para o Pai e não me vereis mais; — e quanto ao juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado. (João, XVI: 7-11.)

Eu tenho ainda muitas coisas que vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora. — Quando vier porém aquele Espírito de Verdade, ele vos ensinará todas as verdades, porque ele não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir. — Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo-á de anunciar. — Todas quantas coisas tem o Pai são minhas, por isso é que eu vos disse que ele há de receber do que é meu, e vo-lo-á de anunciar. (João, XVI: 12-15.)

Eu vos disse estas coisas em parábolas. Hora há de vir, entretanto, em que não vos falarei mais em parábolas, mas abertamente vos falarei do Pai. (João, XVI: 25.)

Perguntamos inicialmente: Os apóstolos e o mundo receberam o Consolador Prometido por Jesus, como dizem as igrejas, cinqüenta dias após a morte do Mestre, isto é, durante os fenômenos ocorridos na festa da Renovação da Aliança, o Pentecostes? As características apontadas por Jesus para o advento do Espírito de Verdade se viram satisfeitas nesse episódio da história do Cristianismo primitivo?

Sabemos que a resposta a tais perguntas é: “Não!”. O Espiritismo, por quanto tem apresentado, constitui de fato o verdadeiro Consolador Prometido pelo Cristo Jesus.

Entretanto, mais de quatorze anos de vivência no movimento espírita e, principalmente, de pesquisa em sua literatura, levaram-nos a entender que este assunto, ao extremo delicado, não se esgota com a facilidade geralmente suposta.

Existem perguntas acerca dele para as quais não houve respostas convincentes, embora não sejam poucos os indicativos doutrinários que lhes viabilizem a elaboração. Tal o caráter deste trabalho: propor soluções ao explicitar e articular esses indicativos.

Necessitamos de mais reflexão e menos expectação. A tarefa de perene dinamização dos conteúdos da eterna doutrina, como sonhava Kardec, cabe a nós, mais que aos espíritos. Contudo, sem um trabalho esmerado de pesquisa e o exercício da mais aguda razão crítica, isso é impossível.

A lição do Codificador não pode ser esquecida. Perguntar é preciso. E saber fazê-lo, mais ainda! O conhecimento não é um conjunto de opiniões formadas desfilando mnemonicamente no intelecto, mas a dinâmica de constante perquirição que lhes dá alma: o trabalho, especulativo ou experimental.

Jesus envolveu também seus discípulos na promessa de enviar o Consolador. Todavia, quando eles o receberam? Segundo Kardec, os fatos ocorridos naquela festa da Renovação da Aliança não representaram — e isto certamente — o cumprimento da profecia. Quando os discípulos a viram realizada então? No surgimento da Doutrina Espírita? Mas entre os autores do Espiritismo se encontram os próprios discípulos e apóstolos de Jesus...

Em face disso, se para os primeiros discípulos e apóstolos do Cristianismo o Consolador não veio naquele dia de Pentecostes, igualmente não chegou mediante a Doutrina Espírita em sua forma codificada, cuja autoria espiritual lhes pertence.

O fato é que para os primeiros discípulos e apóstolos do Cristianismo essa promessa não se realizou em dia e hora marcados, foi realizando-se para eles — ou melhor —, foi realizando-se neles mediante o desenvolvimento de uma compreensão mais ampla da verdade que nós, apenas hoje, no Espiritismo vislumbramos.

Ora! Por interveniência espiritual do primitivo apostolado e do próprio Mestre, justo essa compreensão mais ampla da “essência espiritual da vida” é que foi revelada na obra de Allan Kardec. Facilitar à humanidade essa compreensão mais ampla da “verdade” foi o objetivo da Providência. Isso vai ao encontro da assertiva do Codificador, ao comentar João, XIV: 16:

"(...) A fim de que (o Consolador) fique eternamente convosco, e ele estará em vós. Esta proposição (do Cristo) não poderia se referir a uma individualidade encarnada, que não pode ficar eternamente conosco, nem, ainda menos, estar em nós; mas pode muito bem se referir a uma doutrina que, efetivamente, quando é assimilada, pode estar eternamente em nós".

Desse modo, para os primeiros apóstolos de Jesus, o Consolador foi a Doutrina Espírita em sua essência, isto é, no seu estado de verdade imanente à vida. Tanto assim que o discipulado do Cristo, a exemplo do próprio Mestre, é que promoveu, como já dissemos, o advento do Espiritismo, de comum acordo com o missionário encarnado para a obra de sua codificação: Kardec. O que eles, portanto, assimilaram da essência espiritual da vida, no-lo entregaram: a Doutrina Espírita! Quando a assimilarmos, permanecerá eternamente em nós o Consolador!

Sabemos, então, o que de fato sejam o Espírito Santo e o Espírito de Verdade, sem que, nesses conceitos, perdurem as influências das ficções eclesiásticas? Dizemos isso porque se afirma que o Espírito Santo, o Consolador e o Espírito de Verdade seriam grupos, falanges espirituais. Esse conceito, porém, não é do Evangelho nem da Codificação Kardeciana. Conhecemos, pois, tão bem quanto o temos suposto, as raízes proféticas do Espiritismo e mesmo da estada de seu Codificador na Terra?

De antemão, só diremos que a luz desse saber, tão reclamado pelas vistas ansiosas de nosso espírito, apenas pode ser vislumbrada pela ciência espírita aplicada à filosofia e à teologia, mas numa reflexão crítica sempre tenazmente fundada na obra de Allan Kardec.

SERGIO F. ALEIXO

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Sumário da Obra
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PREFÁCIO

INTRÓITO — Das Relações do Espiritismo com as Escrituras e da sua Identidade Profética

1. As Ficções Clericais

2. O Pentecostes

3. O Espírito Santo
3.1. Falange de Espíritos?
3.2. O Espírito Santo na Revelação Cristã
3.2.1. O Batismo Trinitário
3.2.2. A Blasfêmia Contra o Santo Espírito
3.2.3. O Batismo de Jesus
3.2.4. O Filho de Davi
3.2.5. Alegria no Espírito Santo
3.2.6. O Espírito Santo é que Falará
3.2.7. Mergulhar no Espírito Santo
3.3. O Espírito Santo no Pensamento Espírita

4. O Espírito de Verdade
4.1. Sentido Histórico-Profético (ou “o Espiritismo”)
4.2. Sentido Personalístico (ou “o Espírito Jesus”)
4.2.1. Jesus e o Espiritismo
4.2.2. O Espiritismo e o Juízo
4.3. Sentido Iniciático (ou “a Verdade”)

5 — Jesus: a Encarnação de Iahweh
5.1. Iahweh: um espírito
5.2. Iahweh: a rocha
5.3. Iahweh: Eu sou
5.4. Iahweh: a luz
5.5. Iahweh: justiça por amor

6 — Allan Kardec nas Três Revelações

APÊNDICE
Interpolação na Revista Espírita

Bibliografia