Sergio Fernandes Aleixo

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O Que É Espiritismo

Sumária Exposição Crítica do Pensamento Espírita
Sumária Exposição Crítica do Pensamento Espírita

INTRODUÇÃO


O pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido por Allan Kardec (Lyon, 3.10.1804 — Paris, 31.3.1869), codificador da doutrina espírita, foi discípulo do célebre educador suíço Johann Heinrich Pestalozzi [1746-1827]. Em meados do século XIX, já empenhado num trabalho tão gigantesco quanto solitário, registrou o seguinte no preâmbulo de seu pequeno livro O que é o espiritismo:

"As pessoas que só têm conhecimento superficial do espiritismo são, naturalmente, inclinadas a formular certas questões, cuja solução podiam, sem dúvida, encontrar em um estudo mais aprofundado dele; porém, o tempo e, muitas vezes, a vontade lhes faltam para se entregarem a observações seguidas. Antes de empreenderem essa tarefa, muitos desejam saber, pelo menos, do que se trata e se vale a pena ocupar-se com tal coisa. Por isso, achamos útil apresentar resumidamente as respostas a algumas das principais perguntas que nos são diariamente dirigidas; isto será, para o leitor, uma primeira iniciação (...)".

Vê-se que o motivo central desta nossa obra não representa exatamente uma novidade. Kardec procedeu, no seu trabalho de propaganda doutrinária, a uma publicação de objetivo semelhante. Assim, caso haja interesse pelo que a desinformação de uns e a acomodação de outros apelidou “kardecismo” ou “espiritismo kardecista”, não deve o leitor ignorar o conteúdo de O que é o espiritismo, em que o mestre lionês afirma, modesta mas gravemente:

"Há entre o espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital; que estes são todos obra de homens, mais ou menos esclarecidos, ao passo que, naquele que me atribuís, eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio.
Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec; e isto, felizmente, pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade? O espiritismo tem auxiliares de maior preponderância, ao lado dos quais somos simples átomos".

O livro dos espíritos (1857), O livro dos médiuns (1861), O evangelho segundo o espiritismo (1864), O céu e o inferno (1865) e A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo (1868) constituem a Codificação Espírita propriamente dita. Entretanto, O que é o espiritismo (1859) foi recomendado por Kardec a todo iniciante, por conter, segundo suas palavras,

"(...) sumária exposição dos princípios da doutrina espírita, um apanhado geral desta, permitindo ao leitor apreender-lhe o conjunto dentro de um quadro restrito. Em poucas palavras ele lhe percebe o objetivo e pode julgar do seu alcance. Aí se encontram, além disso, respostas às principais questões ou objeções que os novatos se sentem naturalmente propensos a fazer. Esta primeira leitura, que muito pouco tempo consome, é uma introdução que facilita um estudo mais aprofundado".

Perguntará, então, o leitor: — Por que mais um livro para iniciantes no espiritismo?... Responderíamos que quanto mais títulos, mais oportunidades de estudo. Por outro lado, nosso esforço encontra respaldo na reflexão do maior teórico do pensamento espírita contemporâneo, professor J. Herculano Pires [1914-1979]. Jornalista, escritor e filósofo pela Universidade de São Paulo (USP), ele afirmou que “a introdução a qualquer ramo do conhecimento exige sempre novas perspectivas, de acordo com o fluir do tempo”. Reportando-se ao pensamento do filósofo espanhol Julián Marías [1914- ], asseverou que “a introdução é o agora, o circunstancial, o ato de introduzir alguém em alguma coisa. Essa alguma coisa é uma realidade histórica”. E completou em termos que vale reproduzir:

"No tempo de Kardec, introduzir alguém no estudo do espiritismo era introduzi-lo numa realidade nascente, numa verdadeira problemática em ebulição, num processo histórico em princípio de definição, e principalmente numa nova ordem de idéias. Hoje, é introduzir esse alguém num processo já definido, e não apenas numa ordem de idéias, mas também no quadro histórico em que essa ordem surgiu. Dessa maneira, é introduzi-lo também na própria introdução de Kardec".

Então, se o motivo desta nossa obra não representa exatamente uma novidade, não há dúvidas de que corresponde, no mínimo, a uma exigência contínua, a uma necessidade permanente de outras visões, sempre reclamadas pelo fluir da História.
Faltam-nos ainda hoje, como lembrou Kardec em sua época, o tempo e muitas vezes a vontade para nos entregarmos a estudos perseverantes. Nessa que pode ter sido uma crítica singela ao utilitarismo voraz de nossa civilização, o codificador do espiritismo levou-nos talvez ao melhor do pensamento de René Descartes [1596-1650]. Algo injustiçado em nossos dias, esse insigne filósofo francês considerou o preconceito e a precipitação os grandes vícios da espécie humana. Obstáculos à descoberta da verdade, eles prejudicam o juízo reto e promovem nossas maiores limitações. E se dizemos que Descartes é algo injustiçado em nossos dias, fazemo-lo em uníssono com seu compatriota, o físico Patrick Drouot:

"Façamos justiça a Descartes: não é o seu pensamento que deve ser posto em xeque, mas o que fizeram dele as gerações posteriores. Descartes, de certa maneira, nunca foi cartesiano. Apesar disso, sua visão pouco a pouco levou a um conceito racional desenfreado. Ele privilegiou a noção de Ter à custa da do Ser. (...). De tanto favorecer o corpo, pouco a pouco nos esquecemos de que tínhamos um espírito. De fato, não temos um espírito: Somos espírito. Esse conceito está sendo verificado pela ciência holística, em prejuízo da ciência mecanicista, que só pode ter uma visão fragmentária da realidade".

Nenhum sistema racional de pensamento sofreu tanto por causa do reducionismo quanto a doutrina espírita. Herculano Pires, dotado da razão crítica própria dos filósofos mais austeros, chegou por isso a dizer que “nada é mais desconhecido em nosso mundo” do que o espiritismo, não deixando de responsabilizar mesmo os espíritas. “O espiritismo” — disse ele — “nascido ontem, nos meados do século XIX, é hoje o grande desconhecido dos que o aprovam e o louvam e dos que o atacam e criticam.” E acrescentou:

"Fala-se muito em espiritismo, mas quase nada se sabe a seu respeito. Kardec afirma que a força do espiritismo não está nos fenômenos, como geralmente se pensa, mas na sua filosofia, o que vale dizer na sua mundividência, na sua concepção da realidade. Mas de onde vem essa concepção? Como foi elaborada?
Os adversários do espiritismo desconhecem tudo a respeito e fazem tremenda confusão. Os próprios espíritas, por sua vez, na sua esmagadora maioria, estão na mesma situação. Por quê? É fácil explicar. Os adversários partem do preconceito e agem por precipitação. Os espíritas, em geral, fazem o mesmo: formularam uma idéia pessoal da doutrina, um estereótipo mental a que se apegaram. A maioria, dos dois lados, se esquece desta coisa importante: o espiritismo é uma doutrina que existe nos livros e precisa ser estudada".

Falta-nos muito para estarmos à altura dessa responsabilidade, mas nos dirigimos aqui aos não-adeptos, aos simpatizantes e aos iniciantes. Não escondemos, todavia, o desejo de que esta publicação auxilie também alguns freqüentadores, médiuns, expositores e dirigentes de associações espíritas. Consideram-se bastante experientes e informados, mas muito longe estão, às vezes, de compreender os fundamentos, que se dirá os alcances do espiritismo.

Não estranhe o leitor essa nossa postura, assim tão crítica, numa obra de iniciação. À primeira vista, pode parecer descabido e mesmo antipático. Distante, todavia, de um desestímulo, este livro quer ser um incentivo aos que pisarem no terreno deste “agora”, deste “circunstancial” daquela que, sem dúvida, é a doutrina do futuro.

O espiritismo necessita sobretudo de quem o compreenda por meio das potências mais profundas da identidade humana. Porém, a fonte inesgotável dessas forças é nossa alma imortal, e a doutrina espírita realizou o feito tão singular de colocá-la a descoberto, sem livrar-nos da responsabilidade que nos cabe no tanto que ainda há nela por descobrir. Que venha, pois, o futuro!

SERGIO F. ALEIXO

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Sumário da Obra
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PREFÁCIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1 — O QUE É ESPIRITISMO
1.1 — QUESTÃO RELIGIOSA
1.2 — QUESTÃO CIENTÍFICA
1.3 — QUESTÃO FILOSÓFICA
1.4 — DOUTRINA MULTÍPLICE

CAPÍTULO 2 — O QUE É MEDIUNIDADE
2.1 — CONSIDERAÇÃO TÉCNICA
2.2 — CONSIDERAÇÃO ÉTICA
2.3 — RELAÇÕES FLUÍDICAS
2.4 — TERAPÊUTICA ESPÍRITA

CAPÍTULO 3 — O QUE É REENCARNAÇÃO
3.1 — METEMPSICOSE
3.2 — CARMA
3.3 — O RETORNO
3.4 — NEXOS CAUSAIS
3.4.1 — VÍCIOS
3.4.2 — GENÉTICA

CAPÍTULO 4 — DO CRISTIANISMO AO ESPIRITISMO

CAPÍTULO 5 — EVANGELHO E DOUTRINA ESPÍRITA

CAPÍTULO 6 — AS TRÊS GRANDES REVELAÇÕES

CAPÍTULO 7 — CONCLUSÃO

Glossário

Bibliografia